V A L U A T I O N.
- Valerya Abreu
- 25 de mai. de 2020
- 4 min de leitura

Os financistas utilizam a metodologia chamada valuation para avaliar uma empresa. Amplamente utilizada no mundo todo, trata-se de uma métrica que diz se a empresa está criando ou destruindo valor. Trata-se também de uma projeção de longo prazo, que reúne ganhos e perdas, associadas a investimentos que definem o valor potencial de um negócio. Em primeiro lugar é importante observar que o valor de uma companhia, ao contrário do que se pensa, não está no que ela gerou de lucro no passado, mas sim na capacidade que ela tem de gerar retornos positivos no futuro, com os recursos que dispõe hoje, e de quanto tem saúde e está disposta a investir.
Da mesma forma uma marca, o intangível de maior valor da empresa, tem no brand equity a metodologia de cálculo para o seu valor. Ambas se baseiam em indicadores, percepção e projeções. Ou seja, no passado, presente e no futuro.
Pós a pandemia do COVID-19, teremos outro mundo para compreender, para dar conta, novos parâmetros e relações para (re)construir. Um novo futuro. Adaptar, corresponder e se envolver parecem ser movimentos necessários.
Nesse futuro que está se desenhando, é muito provável que a ideia de valuation seja um pouco alterada e outra moeda venha a fazer parte da equação: a moeda do propósito existencial. E falar de propósito é falar de sentido, daquilo que é essencial. O que nos leva a pensar que, em virtude de todo o contexto em que vivemos, o que gerou valor no passado não necessariamente vai gerar no futuro.
Simplesmente porque no cenário atual as questões humanas se sobrepuseram, tudo tem que fazer sentido a partir daí. Ganhou peso o aspecto comportamental em todos os processos. Nada mais simples e, por isso mesmo, nada mais complexo.
Muito provavelmente o valuation tradicional vai precisar ser adaptado, com novos aspectos entrando na sua equação. O impacto do isolamento social está sendo muito significativo, inclusive chamando a atenção para o fato de que só se gera valor no coletivo, algo que a parada mundial evidenciou. Distanciados socialmente, perdemos força, o movimento natural do dia a dia tende a declinar, a economia enfraquece, demandas mudam radicalmente e os ânimos, talvez um dos mais importantes aspectos da questão, perde vitalidade. Sem perspectiva de vida, não somos nada, não temos nem geramos valor algum.
Qualquer produto ou marca, por maior que seja seu brand equity até aqui, vai precisar de algum bocado de sinceridade para se reapresentar a um mundo mais sensível, mais frágil, mas mais maduro também.
Condutas e atitudes precisam fazer um pouco mais de sentido.
A lei da sustentabilidade definitivamente se fez entender. A manutenção da vida de cada um depende de atitudes de outra pessoa e vice-versa.
Mais do que nunca, compreendemos que precisamos um do outro para viver e, consequentemente, também para gerar valor de curto, médio e principalmente de longo prazo. Pessoas protagonizam processos vitais, um óbvio que passava despercebido.
Gerar valor tem a ver agora com processo comportamental.
Isso significa que outra métrica precisará ser pensada na composição de valor, seja de uma empresa, de uma marca ou nas relações humanas.
Não há momento mais oportuno para uma reflexão profunda sobre o assunto, tanto para pessoas quanto para organizações, como o que estamos vivendo.
Ampliando um pouco mais o espectro da questão, ainda considerando o conceito de valuation, sairemos da crise valendo mais ou menos?
Estamos, cada um de nós, como pessoas físicas ou jurídicas gerando ou destruindo valor para a sociedade e, em última análise, para o planeta?
Qual o comportamento esperado perante a sociedade nesse momento de crise? Do que cada um lembrará após a pandemia, quais os aprendizados e o que está sendo deixado pelo caminho quando as engrenagens da economia voltarem a funcionar e o novo futuro estiver pronto?
O que gerava valor de longo prazo e que não se encaixa hoje na lógica do valor coletivo, tem que passar por reformas. Reformas de consciência, inclusive, que são sempre as mais difíceis. Fazer essas avaliações nesse período de incubação em que estamos vivendo pode ser um ótimo exercício. Estamos inseguros e a insegurança desperta a atenção e outros sentidos. O valor da vida está em pauta, a fragilidade humana diante de dúvidas neste momento em que as cortinas se fecharam, metaforicamente falando, é generalizada.
Inclusive porque não se sabe quando se abrirão novamente.
Muitas pessoas já morreram em todo o mundo e permanecemos sob ameaça. O patrimônio emocional hoje é um ativo que vale mais do que dinheiro no banco, mais do que qualquer outra moeda que a sociedade julgava de valor. Mudanças e mais mudanças, os indicadores que funcionavam podem não funcionar mais. Parece necessário um novo alinhamento equilibrado e harmonioso entre pensamento e ação. O desequilíbrio aí se mostrou perigoso, é preciso investir tempo rapidamente para corrigir esse possível gap.
Como seremos lembrados daqui a centenas ou milhares de anos?
Que legado estamos deixando para o futuro?
Que tipo de liderança está sendo a referência nesse momento de crise mundial? Quantas vidas estão sendo impactadas pelas decisões que estão sendo tomadas e pela forma como até aqui a sociedade, de um modo geral, gerou valor?
O que está em jogo é o mais importante dos ativos, a existência humana. E ela deve sim ser sempre a moeda mais valiosa na composição de qualquer v a l u a t i o n.
Josiane Araújo
Valerya Abreu
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